Taikai Brazil

Taikai Brazil (II)

Escrito por Kleber Teixeira em 1 de maio de 2014

A minha visão neste Coffee Feeling foi marcado pela antagonia entre o céu (Ten) e a terra (Chi). Enquanto me encontrava em um momento fortemente espiritual podia ver e sentir novos companheiros praticantes em um momento mais físico.

Iniciamos nossa jornada em Chi, em técnicas puramente repetitivas e totalmente voltadas ao treinamento físico, tal qual ainda me encontro. Mas pude desfrutar de uma transmutação que tocou fortemente planos mais sutis.

E de que outra forma seria se não desta?! Afinal o tema desde 1° Taikai Brazil foi Shin Budôh no Ten Chi Jin ! E desfrutando dessa antagonia tentarei descrever três assuntos que mais me chamaram atenção.

São eles: a forma de graduação, a Obi (faixa) e ser aluno.

Obviamente são três assuntos intrinsecamente conectados, tendo em vista que se tratam de dúvidas de quem acaba de entrar em contato com uma arte marcial, do início, Chi.

Vejamos a forma de graduação e as faixas… Inicialmente não havia graduações numeradas, cores e faixas como há hoje em dia, as artes marciais foram o resultado de uma necessidade de defesa aos conflitos existentes em época de guerras e disputas. Praticava ou não praticava, estava preparado ou não estava, vivia ou morria.

O mais próximo do que conhecemos de uma forma de graduação era a hierarquia dentro de um grupo ou família.

A ocidentalização “modernizou” e criou um sistema genérico de graduações que em sua maioria recompensa o esforço do aluno com cores diferentes, desta forma “exibindo” sua graduação aos demais sem a necessidade de observações detalhadas ou comprovações em combate.

Sensei Fernando Cardoso sempre nos diz que de forma muito inteligente Soke percebeu essa necessidade e adaptou a nossa arte para receber uma forma ocidental de recompensa e organizou em graduações, assim como aconteceu em outras artes marciais japonesas. Contudo, tal qual como é um Budôh verdadeiro, o caminho é pessoal e intransferível. E desta forma a “exibição” da graduação em nossas faixas praticamente não existe. Somos todos iguais, cada um com seu treinamento, somente em uma fase diferente de crescimento.

Ele disse, para todos os alunos que lá estava neste Coffee Feeling, que em tempos antigos, a faixa era uma tira de pano branco que fechava o Kimono/Dogi e segurava a calça para que não caísse. Com os anos de treinamento essa faixa ia escurecendo, sujando e gastando. Era a forma de “exibir” seu tempo de treino e dedicação.

Mas então por que não se lavava a faixa? Por que não se tinha os mesmos cuidados que se tomava com todo as outras vestimentas?

Sensei falou sobre uma crença antiga que diz que a faixa carrega a energia do treino, da dedicação e do esforço do Budoka e desta forma se fosse lavada essa energia se perderia levada pela água. Assim, de forma tradicional, não lavamos nossas faixas.

Finalmente chegamos ao terceiro assunto, o aluno.

Tive o privilégio de observar a curiosidade de muitos quanto como para um Shihan (Sensei Fernando) ser aluno de Soke, estar treinando no dojo mais importante de nossa arte, como é estar em meio a tantos outros praticantes do todo o mundo.

Basicamente essa resposta é a mesma que nós mesmos responderiamos à quem nos perguntasse como foi treinar com Shihan Fernando no Honbu Dojo neste Taikai.

Somos e sempre seremos alunos perante nosso Sensei, assim como sempre somos alunos perante a vida. Sempre seremos alunos precisando de correções e maravilhados com a capacidade de nosso Sensei. Da sutileza e grandiosidade de uma técnica que na maioria das vezes não conseguimos reproduzir.

Esse sentimento reforça a afirmação e o conceito de graduação que Soke Hatsumi criou, sutilmente mostrando que somos todos iguais…

Kleber Tadeu Teixeira – 1° Kyu
Deshi de Sensei Fernando Cardoso